Pťtala de Rosa
"Nada existe de grandioso sem paix√£o."
Georg Wilhelm Friedrich Hegel
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O casal perfeito

 
A solidão dos homens tem a medida da solidão de suas mulheres. Isso eu disse e escrevi - e repito - em dezenas de palestras por este país afora. Aí me pedem para escrever sobre o casal perfeito: bom para quem gosta de desafios.

O casal perfeito seria o que sabe aceitar a solidão inevitável do ser humano, sem se sentir isolado do parceiro - ou sem se isolar dele? O casal perfeito seria o que entende, aceita, mas não se conforma, com o desgaste de qualquer convívio e qualquer união?
Talvez se possa começar por aí: não correr para o casamento, o namoro, o amante (não importa) imaginando que agora serão solucionados ou suavizados todos os problemas - a chatice da casa dos pais, as amigas ou amigos casando e tendo filhos, a mesmice do emprego, chegar sozinha às festas e sexo difícil e sem afeto.

Não cair nos braços do outro como quem cai na armadilha do "enfim nunca mais só!", porque aí é que a coisa começa a ferver. Conviver é enfrentar o pior dos inimigos, o insidioso, o silencioso, o sempre à espreita, o incansável: o tédio, o desencanto, esse inimigo de dois rostos.

Passada a primeira fase de paixão (desculpem, mas ela passa, o que não significa tédio nem fim de tesão), a gente começa a amar de outro jeito. Ou a amar melhor; ou, aí é que a gente começa a amar. A querer bem; a apreciar; a respeitar; a valorizar; a mimar; a sentir falta; a conceder espaço; a querer que o outro cresça e não fique grudado na gente.

O cotidiano baixa sobre qualquer relação e qualquer vida, com a poeira do desencanto e do cansaço, do tédio. A conta a pagar, a empregada que não veio o filho doente, a filha complicada, a mãe com Alzheimer, o pai deprimido ou simplesmente o emprego sem graça e o patrão de mau humor.

E a gente explode e quer matar e morrer, quando cai aquela √ļltima gota - pode ser uma trivial√≠ssima gota - e nos damos conta: nada mais √© como era no come√ßo. Nada foi como eu esperava. N√£o sei se quero continuar assim, mas tamb√©m n√£o sei o que fazer. Como a gente n√£o desiste f√°cil, porque afinal somos guerreiros ou nem estar√≠amos mais aqui, e tamb√©m porque h√° os filhos, os compromissos, a casa, a grana e at√© ainda o afeto, √© preciso inventar um jeito de recome√ßar, reconstruir. Na verdade devia-se reconstruir todos os dias. Usar da criatividade numa rela√ß√£o. O problema √© que, quando se fala em criatividade numa rela√ß√£o, a maioria pensa logo em inova√ß√Ķes no sexo, mas transar √© o resultado, n√£o o meio. Um amigo disse no anivers√°rio de sua mulher uma das coisas mais belas que ouvi: "Todos os dias de nosso casamento (de uns 40 anos), eu te escolhi de novo como minha mulher".

Mas primeiro teríamos de nos escolher a nós mesmos diariamente. Ao menos de vez em quando sentar na cama ao acordar, pensar: como anda a minha vida? Quero continuar vivendo assim? Se não quero, o que posso fazer para melhorar? Quase sempre há coisas a melhorar, e quase sempre podem ser melhoradas. Ainda que seja algo bem simples; ainda que seja mais complicado, como realizar o velho sonho de estudar, de abrir uma loja, de fazer uma viagem, de mudar de profissão.

Nós nos permitimos muito pouco em matéria de felicidade, alegria, realização e sobre tudo abertura com o outro. Velhos casais solitários ou jovens casais solitários dentro de casa são terrivelmente tristes e terrivelmente comuns.

√? dif√≠cil? √? dif√≠cil. √? duro? √? duro. Cada dia, levantar e escovar os dentes j√° √© um ato heroico, dizia H√©lio ellegrino. Viver √© um hero√≠smo, viver bem um amor mais ainda. O casal perfeito talvez seja aquele que n√£o desiste de correr atr√°s do sonho de que, apesar dos pesares, a gente, a cada dia, se escolheria novamente, e am√©m.

Lya Luft

 
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